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MAÇONARIA CARBONÁRIA - MAÇONARIA FLORESTAL
1. A Maçonaria Carbonária existe no Brasil, desde cerca de 1800, por influência sobretudo Francesa e Portuguesa. Perseguida a partir da promulgação da bula condenatória do Papa PIO VII (1821), em todos os países onde funcionava e ativa estava, teve, como alguns de seus introdutores em nosso país, Joaquim do Lêdo e José Bonifácio de Andrada simpatizante da Maçonaria Florestal senão ele próprio maçom e primeiro Grão Mestre da Maçonaria Brasileira, em que pese terem vividos em destacadas rivalidades, segundo alguns historiadores maçons da época. Contudo, também foi vítima, tal qual a ordem da pedra, pela escumunhão da Igreja Católica.
A Carbonária, manteve-se até hoje como corpo maçônico regularmente constituído e representativo da Maçonaria Carbonária Universal, embora tenha permanecido por um longo período sob o manto de inúmeros maçons carbonários, oculta e operante nas Lojas e Obediências diversas, contudo, seu espírito, herança e brio, não se apagou jamais. Existiram, claro está, cisões e divisões como por toda a parte e, em especial, as ocorridas dentro do Grande Oriente e Grande Lojas, como também em outras tantas e sucessivas obediências, mas o seu espírito e esperança prevaleceram, sendo sempre possível restaurar a unidade interrompida.
Reestruturada, regularizada e personalizada jurídicamente como Grande Loja Carbonária do Brasil, desde 1984, a Maçonaria Carbonária, trabalhando no rito florestal, pretende efetivar relações fraternas oficiais com praticamente todas as Obediências do mundo.
1. que seja formada por, pelo menos, 7 mestres maçons; 2. que seja dirigida por 3, iluminada por 5 e tornada justa e perfeita por 7; 3. que trabalhe segundo um ritual que utilize os símbolos da construção; 4. que tenha as suas sessões num local fechado e coberto onde se encontrem as colunas J e B, as três grandes luzes entre as quais o esquadro, o compasso, e o canivete, instrumentos do grau e o pavimento em mosaico; 5. que pratique os graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre; 6. que a iniciação no grau de Aprendiz, a efetuar sob o sinal do triângulo, compreenda a câmara de reflexões, as provas e a passagem das trevas à luz; que a elevação ao grau de Companheiro Fendedor tenha lugar à luz da estrela flamejante; que a exaltação ao grau de mestre inclua a comunicação da lenda de Hiram; que a cada grau corresponda um compromisso solene; 7. que se considere maçom carbonário todo aquele que tenha sido formalmente iniciado numa loja maçônica justa e perfeita; Além destes princípios essenciais, a Grande Loja Carbonária do Brasil julga importantes e pratica pela sua Constituição e regulamentos, ou recomenda às suas lojas (Vendas), a prática dos seguintes: 8. que exista um grão-mestre eleito pelo povo maçônico carbonário; 9. que o grão-mestre tenha o direito de presidência em toda e qualquer reunião maçônica carbonária; 10. que o grão-mestre possa, se necessário, criar maçons carbonários e conferir graus; 11. que o grão-mestre possa autorizar a criação de lojas (Vendas); 12. que os irmãos (Bons Primos), tenham o direito de estar representados nas reuniões gerais maçônicas carbonárias, através das respectivas lojas (Vendas); 13. que cada irmão tenha o direito de apelar, para um corpo superior, das decisões da sua loja (Venda); 14. que cada irmão tenha o direito de visitar e tomar assento em qualquer loja (Venda); 15. que os visitantes sejam maçonicamente examinados antes de admitidos em qualquer loja (Venda); 16. que cada loja (Venda), não se intrometa em assuntos internos de outra nem confira graus a irmãos que não sejam do seu quadro; 17. que cada irmão esteja sujeito à Constituição, leis e regulamentos da Grande Loja Carbonária do Brasil; 18. que todo o candidato à iniciação seja isento de defeitos e mutilações e maior de 18 anos; 19. que cada loja trabalhe sob a invocação do Sagrado Mestre do Universo, cabendo a cada irmão plena liberdade de interpretar, religiosa ou filosoficamente, aquele conceito; 20. que a terceira das três grandes luzes indicadas no ponto 4. dos princípios essenciais, seja o Livro da Lei, representado pela Bíblia Sagrada; 21. que todos os maçons carbonários sejam iguais dentro da loja (Venda), onde trabalham, independentemente das suas diferenças na sociedade pagã; 22. que os conhecimentos adquiridos por iniciação nos vários graus sejam mantidos secretos e só comunicados a outros irmãos; 23. que se aceitem os ensinamentos simbólicos da Maçonaria em geral como ciência especulativa com profundo objetivo moral. Assim, a Grande Loja Carbonária do Brasil, atém-se na sua quase totalidade aos 25 landmarks tradicionais da lista compilada pelo maçom norte-americano Albert G. Mackey, pondo apenas restrições aos nos. 1 (processos de reconhecimento), 18 (só no que respeita à proscrição absoluta das mulheres. Quanto ao 25o. e último landmark (inalterabilidade dos próprios landmarks), considera-o um absurdo histórico e filosófico de raiz dogmática, já que a mudança dos tempos tudo obriga a rever, corrigir e alterar.
Todas as Lojas (Vendas), da G.'.L.'.C.'.B.'. trabalham presentemente no Rito Florestal baseado nos de 1807, 1818 e 1822, então praticados em Itália, França, Portugal e Brasil, mas nada impede que outros ritos possam vir a ser introduzidos se as Lojas assim o entenderem. 4. A Grande Loja Carbonária do Brasil, rege-se pela Constituição de 1984, explicitada por um Regulamento Geral. À frente da Grande Loja Carbonária do Brasil, encontra-se o Grão Mestre Geral, eleito por um período de três anos por sufrágio direto dos IIr.'. decorados com o grau de Mestre. Substituem-no nos seus impedimentos e coadjuvam-nos um Grão-Mestre Adjunto e o Grande Orador eleitos por igual período de tempo e pela mesma forma. Completa o executivo um Conselho da Ordem de membros eleitos no triênio formados também pelos Past Masters, formando assim a Alta Venda Carbonária. Este conselho reúne-se periodicamente e trata de todos os assuntos de caráter administrativo e executivo. Com poderes sobretudo legislativos existe portanto, a Alta Venda, constituída pelos Veneráveis e todas as lojas (Vendas), e por representantes de cada loja (Venda), eleitos anualmente por todos os IIr.'. que a compõem. A Justiça Carbonária é exercida, em primeira instância, dentro das próprias lojas (Vendas). Em segunda instância, funciona um Grande Tribunal, composto por cinco juízes, eleitos pela Alta Venda Carbonária. 5. A sede da Grande Loja Carbonária do Brasil, é em Curitiba, Estado do Paraná no chamado Castelo dos Carvoeiros da Floresta Negra, localizado na Rua dos Carvoeiros, s/n. Bairro São Pedro (próximo à ponte do Rio Passaúna – Divisa de Campo Magro. Trata-se de uma Venda Carbonária, que funciona nos moldes da Carbonária Antiga, em meio a uma Floresta (Um Alqueire) adquirido pelos maçons carbonários recentemente. Lá, projeta-se a construção de um Castelo ao estilo medieval, cuja área estima-se em 1500 m2, onde funcionarão Lojas e Vendas, tendo em suas torres, diversas salas de aula, alojamentos, refeitórios, cozinhas, praça de esportes e lazer. Serão recolhidos inicialmente, 60 menores abandonados, entre 08 e 12 anos de idade, que receberão ensino e atendimento em período integral, além da assistência aos seus familiares. Desde 15 de Janeiro de 2004, se trabalha dioturnamente para a efetivação do mencionado projeto, restituindo à Maçonaria Carbonária a dignidade e a característica que a fez reconstruir e onde se voltaram a reunir as lojas (Vendas), Giuseppe Garibaldi, Anita Garibaldi, Benso d`Cavour, todas de Curitiba, a partir deste ano. O Palácio Maçônico Carbonário, constará de uma construção com 320 m2, contendo uma Torre de três andares, onde primeiro estarão localizados os serviços administrativos, a biblioteca e o arquivo. O segundo será ocupado pelos gabinetes dos Veneráveis e GMG. O terceiro destinar-se-á as secretarias de lojas. Em outras torres, funcionarão a Academia Maçônica Carbonária de Letras, Arte e Cultura do Brasil, além de outras entidades culturais e benéficas, legalmente constituídas e que servirão de ligação oficial entre a Maçonaria e o mundo pagão. Nelas se acharão também o Museu da Carbonária, salas para convívio, banquetes e um bar restaurante. 6. O Rito Florestal Carbonário, foi introduzido em Portugal pela França e Itália, antes mesmo de 1800, sendo sabido que José Bonifácio de Andrada, Joaquim do Lêdo, Alm. Tamandaré e tantos outros, iniciaram-se na Maçonaria Florestal como o faziam os cientistas e naturalistas da época. Não dispõe de um Supremo Conselho do Grau 33, todavia, com ajuda de vários Maçons investidos no Gr.'. 33, hoje Bons Primos, preparam a sua introdução nos estudos dos graus filosóficos do 4. ao 33 do REAA, adaptado. É certo e tradicional, o ramo andrógeno da Carbonária, composto de um corpo feminino, totalmente subordinado à A.'.V.'.C.'.B.'., todavia, de atividade livre e independente, praticando o mesmo Rito Florestal, a exemplo da R.'.V.'.M.'.C.'.F.'. Anita Garibaldi, n. 03 na Floresta de Curitiba-Pr. Assim, não admite a Maçonaria Carbonária, desavenças, intrigas e maledicências entre seus IIr.´. e Bons Primos, primando pela verdadeira união em todos os aspectos, pela Liberdade, Igualdade e Humanidade em todos os sentidos, e pela soberania da pátria que nos serve de abrigo, cientes do dever e da herança republicana e guardiã dos direitos e protetora dos desvalidos da sorte. Afinal, se hoje, grande parte do países democráticos do mundo gozam de liberdade, igualdade e fraternidade, é certo que se faz graças aos punhaiss da Carbonária do passado. A abolição da escravatura no Brasil, teve a indeclinável e decidida participação das Lojas Maçônicas Carbonárias do passado, inclusive a ativa participação da Carbonária Italiana e Portuguesa na luta pela independência do Rio Grande do Sul, contra o despotismo e monarquia feudal experimentada pelo Brasil, nos idos de 1835 à 1845, já que Dom Pedro II, não era Maçom Carbonário, como o foi Dom Pedro I. “O Maçom que não respeita a liberdade de associação de seus pares, discrimina potências ou ritos de outras sociedades secretas mas de idêntica filosofia (entre outros disparates), é um déspota digno do mais profundo desprezo. Usa indevidamente a condição de Ir.'. e apregoa falsamente moral que não lhe faz juz" Por isso, à Grande Loja Carbonária
Na forma de Maçonaria Florestal é uma Ordem Universal formada de homens de todas as raças, credos e nacionalidades, escolhidos por iniciação e congregados em lojas (Vendas) nas quais por métodos ou meios racionais auxiliados por símbolos e alegorias, estudam e trabalham para a construção da sociedade humana; Fundada no Amor Fraternal, na Esperança, na Fé e na Caridade, que com Tolerância, Virtude e Sabedoria, com a constante livre investigação, com o progresso do conhecimento humano das ciências e das artes, dentro dos princípios da Moral, da Razão e da Justiça, o Mundo alcance a PAZ UNIVERSAL. "O SEU DEUS É TAMBÉM O NOSSO DEUS" A GRANDE LOJA CARBONÁRIA DO BRASIL (ALTA VENDA CARBONÁRIA), trabalhando sob as doutrinas puras da Moral, da Razão e da Justiça, sociedade simbólica e iniciática, adota rito litúrgico universal, que tem por base os seguintes P R I N C Í P I O S : 1. A Maçonaria Florestal, proclama, com vem fazendo desde a sua origem, a existência de um Princípio Criador, sob a denominação de "Sagrado Mestre do Universo". 2. A Maçonaria Florestal, não impõe limite à livre investigação da verdade e à liberdade de pensamento e consciência, defendendo a mais plena liberdade de expressão e de pensamento como direito fundamental e inalienável do ser humano, e é para garantir a todos a amplitude dessa liberdade que ela exige a tolerância. 3. A Maçonaria Florestal, é acessível aos homens e mulheres de todas as raças e de quaisquer crenças religiosas, credos políticos, sistemas filosóficos e ideológicos, desde que sejam livres e de bons costumes. 4. A Maçonaria Florestal, combate a ignorância, a superstição e a tirania, e qualquer forma de pré-julgamento do ser humano baseado em raça, religião ou credo político, ideológico ou filosófico e a discriminação. 5. A Maçonaria Florestal, condena a exploração do homem pelo homem, o cerceamento por qualquer forma da liberdade, os privilégios e regalias indevidas, a hipocrisia, mas, enaltece o mérito da inteligência, a prática da virtude, bem como o valor demonstrado na prestação de serviço à Ordem, à Pátria e à Humanidade. 6. A Maçonaria Florestal, por ser uma entidade mediadora nos choques ideológicos entre os homens e mulheres, permite as discussões em suas Vendas, acerca das matérias que mereçam o apoio da Ordem e dos Bons Primos, nas causas da Liberdade, Igualdade e Humanidade, e a Soberania da Pátria! Assim Proclamado: Como de fato proclamada tem, a Maçonaria Carbonária por todo o conteúdo supra exposto, não busca reconhecimento de sua regularidade maçônica com outros corpos, mas sim, amizade, paz e prosperidade entre todos os IIr.'., de sorte que, para tanto, coloca-se de P.'. e a O.'. para todas as OOb.'. com sinceridades de propósitos, reiterando e enaltecendo o Landemark 14, onde estarão os nossos Templos receptivos as visitas dos AAm.'. IIr.'. de todo o Orbe, na certeza do apreço e do carinho fraternal que gozarão numa sociedade de Bons Primos, os encantos da igualdade! Dado e traçado em algum lugar do Templo de Jerusalém, aos três Sóis, da Quinta Lua, do ano da Graça de N.'. B.'.Pr.'. Jesus Cristo, de 2004 e sob os auspícios de N.'.P.'. São Teobaldo - E.'.C.'. na Gr.'. Flor.'. da Maç.'. Flor.'. Brasileira.
No meu caso pessoal, lido com textos, e os textos têm aspectos condenáveis e louváveis. Além disso, como vou mostrar, muito pouco neles é prova suficiente para os considerar assinados por carbonários. Mas o meu desejo é de facto aprofundar o conhecimento da cultura carvoeira para melhor me aproximar da floresta que lateja no naturalismo. A Carbonária, também chamada Maçonaria da Madeira e Maçonaria Florestal, em paralelo com a Maçonaria da Pedra, é o ramo desta que, em Portugal, desencadeou a implantação da República, e garantiu a sua integridade nos primeiros anos. A partir daí, é geralmente considerada extinta pelos historiadores. Este desaparecimento não é radical, a sociedade pode ter encerrado, mas os seus membros sobreviveram, com a bagagem de conhecimento nela adquirido. Ora o conhecimento é uma casa com porta única: o que por ela entra, tem como destino ser transmitido. É isso a traditio: passagem de testemunho. Por muito que a Carbonária Portuguesa esteja extinta, o que não é assim tão fácil de aceitar, algo dela sobrevive. Pelo menos como discurso clandestino, pois já detectámos a sua presença em textos posteriores à República (1), e mesmo num, de Fernando Frade, datado de 1946 (2). Ao de Fernando Frade, no qual é muito insistente o uso das expressões “barraca” e “barraca improvisada”, já me referi em trabalho publicado no TriploV, e também numa webpage carbonária (3). “Barraca” e “choça” designam hierarquias na agremiação da Maçonaria da Madeira. Implicam, na sua construção, o emprego da matéria-prima em cujo símbolo assenta a sociedade (o termo Carbonária provém de carbono, carvão, produto vegetal). Essa matéria-prima, homóloga da pedra, é a madeira. Como então disse, a barraca e a choça constituem um topos muito característico da narrativa de viagens empreendidas pelo naturalista. Invariavelmente, é obrigado a pernoitar ou a viver nelas uns dias. É assim que o explorador italiano Leonardo Fea, no seu périplo pela África ocidental, tem de improvisar a sua com algumas tábuas e pedaços de vela, no ilhéu Branco, em Cabo Verde. Na ilha de Ano Bom, no Golfo da Guiné, o topos repete-se, de modo mais insinuante, por unir o que de facto está intimamente unido em termos simbólicos, a barraca e o templo: “Nell'unica Missione di quest' isola non è posto per lui ed è costretto a rifugiarsi in una capella, o meglio in una baracca sdruscita e lurida” (4). A bandeira verde e vermelha da Carbonária, com ligeiras alterações de caracteres, é a que ainda hoje simboliza Portugal. Diversamente da Maçonaria da Pedra, a da Madeira inclui membros de todos os estratos sociais, mulheres também, e sobretudo recrutou operários e outros trabalhadores, no período anterior à República. O que melhor caracteriza esta sociedade secreta é o facto de operar como exército, quando a solicita alguma grande campanha social ou política, como aconteceu sob a liderança de Garibaldi na unificação da Itália, e entre nós com a queda da monarquia, daí que José Brandão o declare logo no título da sua obra. Então o bom primo é um cavaleiro da modernidade, não usa espada porque já não vive no tempo dela, mas é-lhe exigida a posse de arma de fogo e respectivas munições. O seu ideário é idêntico ao da maçonaria, defende o lema celebrizado pela Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade (ou Humanidade, em versões carbonárias actuais). A Maçonaria da Madeira não existe de forma independente, é uma ala armada da maçonaria em termos gerais. Se bem que a Carbonária seja secretíssima, algumas evidências se lhe conhecem, entre elas, essa: todos os carbonários são maçons, mas nem todos os maçons são carbonários. Nos textos do naturalismo, são frequentes as assinaturas e as marcas maçónicas, mas algumas participam especificamente da simbólica carbonária, casos da iniciação na floresta, e do templo construído à sombra das suas frondosas árvores. Em relação às marcas maçónicas universais, já tenho falado de várias. Nunca falei da prancha nem da raiz, termos que designam o ofício, uma peça de oratória, o primeiro termo na Maçonaria da Pedra, e raiz na Carbonária. Não me apercebi ainda da existência desta palavra nos textos, a não ser, claro, no seu sentido próprio em Botânica. Já a prancha solicita às vezes atenção, por a vermos em contexto invulgar. Se é comum para designar imagens, na linguagem oral mais do que na escrita, esse uso exprime-se em francês e não português: planche. Nós, portugueses, para além de “estampa”, “imagem”, “ilustração”, etc., também dizemos “planche”. Então, quando ocorre a palavra “prancha” para designar as estampas de um livro (ou noutras circunstâncias), isso soa a marca maçónica do texto. Dez anos após a publicação do livro de José Brandão, julgo que não se saiba muito mais sobre a Carbonária em Portugal, além do que eu mesma tenho revelado, não do ponto de vista do historiador, sim do exegeta de textos dos naturalistas. A principal razão para se saber tão pouco decorre do seu grande secretismo. No meu caso, da circunstância de o bom primo usar a simbólica geral da maçonaria, raramente sendo óbvia a da sua tradição própria, fundada em grande parte no léxico do Reino das Plantas. Na Botânica, as marcas até podem ser óbvias, receio porém que só o botânico simultaneamente iniciado no carbonarismo as detecte com facilidade. Para o profano que pouco ou nada sabe de Botânica, como é o meu caso, as marcas, a existirem, confundem-se com o discurso normativo sobre o jardineiro, o lenhador e o rachador. O botânico e o silvicultor falam naturalmente da raiz, do tronco, da árvore frondosa, ou invocam possíveis parentes como o primo Carvalho, o primo Oliveira, etc., sem que isso provoque sobressaltos à leitura ingénua: como saber se o autor não tem realmente um primo chamado Olmo e outro chamado Acácio? Só quando há forte baralhação dos graus de parentesco, e já temos visto autores chamarem sobrinhas às primas, uma criatura começa a desconfiar. Para funcionarem como alerta, é necessário que tais elementos se comportem de forma anómala no contexto - por excesso, defeito, ou deslocação abrupta do sentido. O texto que eu diria mais tipicamente carbonário que já me passou pelas mãos, mas do qual ainda só coligi alguns exemplos dispersos, é o livro-artigo de Júlio Henriques sobre São Tomé, relato de uma viagem à ilha anos antes da República, mas publicado só em 1917, seis anos depois da sua implantação (5). Diria isso, mas é difícil a comprovação. Já é fácil provar a sua instrumentalidade subversiva, em todos os domínios em que se inscreve um livro. A dificuldade que se levanta à análise mais extensa é justamente o facto de Júlio Henriques ser botânico, e por isso não serem perceptíveis, ou invocáveis como provas pelo não botânico, os elementos lexicais do livro que, participando em simultâneo das semânticas do mundo vegetal e da Maçonaria Florestal, se encontram no contexto desviados do sentido botânico. Estando desvinculados do sentido normal da Botânica, então é porque a sua comunicação se exerce no interior da semântica carbonária. Uma das passagens do livro mais impregnada emocionalmente é aquela em que fala das derrubadas, o abate das árvores. Mas em São Tomé não havia nada de menos espiritual nem de mais materialista do que destruir a floresta para ganhar terreno onde se pudesse cultivar o café e o cacau. Nada permite então considerar esse tipo de relato como próprio de um autor que nele visa deixar as marcas da sua identidade carbonária. Mas elas estão lá, quanto mais não seja, por inevitabilidade da polissemia: quem abate as acácias com o machado é o rachador, sejam autor e rachador iniciados ou não. Um elemento tão deslocado como o psicómetro, que Júlio Henriques emparelha com o pluviómetro e com o termómetro, em discurso sobre a meteorologia, é uma machadada subversiva no texto, mas em nada se relaciona com a semântica carbonária. Já a pontuação, e sobretudo os acentos gráficos desviantes, sim. Oliveira Marques refere algures que os carbonários dispõem de escrita com sinais característicos, o que contempla decerto estes aspectos gráficos, resta porém descobrir algum caderno de notas que nos industrie na sua gramática, para além daquilo que é do conhecimento público, como os três pontos em triângulo com o vértice apontado para baixo, em V, ao contrário do que acontece na Maçonaria da Pedra. O alfabeto maçónico é conhecido, o carbonário, nunca vi. Entre as poucas marcas indubitavelmente carbonárias, a mais expressiva verifica-se na adopção do próprio nome como elemento constitutivo do binómio lineano, ou da localidade de que são originários os exemplares a partir dos quais foram feitas descrições de novas espécies para a ciência. No primeiro caso, temos as espécies carbonaria, carbonerae, carbonema, etc., no segundo os topónimos Carvoeiro, Carbonera e afins. Os topónimos, só por si, pouco identificam. Em princípio, admito que sejam, ao menos alguns, anteriores ao aparecimento da instituição maçónica. Mas há outros de cuja origem não descobri rasto, relativos a acidentes geográficos mínimos, o que me leva a crer que tenham sido criados pelos próprios naturalistas. É preciso que haja vários elementos simbólicos no texto, ou que o próprio contexto os ilumine, para os aceitarmos como assinatura. Assim, chamam a atenção certos excessos, como as abundantes referências ao carvão na literatura de ou sobre exploradores-naturalistas, nos jornais das últimas décadas do século XIX, e nas memórias descritivas de territórios ultramarinos. Há um ilhéu minúsculo e desabitado, o ilhéu de Santa Maria, face à cidade da Praia, em Cabo Verde, para o qual alguma literatura remete dois factos incomuns. O primeiro pertence mesmo à esfera do maravilhoso: refere-se a existência de cágados no ilhéu. Que eu saiba, os cágados ainda não fizeram a sua espectacular aparição na fauna de Cabo Verde. Estes animais são dulciaquícolas, o arquipélago é desértico e no ilhéu de Santa Maria nem sequer há água doce. O outro facto é em aparência banalíssimo, e só por força de tal banalidade se torna insólita a informação de nele ter existido outrora um depósito de carvão. O que há de extraordinário no ilhéu? Só se for uma espécie de osga descrita a partir de exemplares coligidos em Bornéu, que deve ter sido largada em Cabo Verde por algum comandante de navio que as levava de presente para as primas, filhas da sua querida esposa: Tarentola borneensis. E é assim: os jornais assinalam a chegada de navios com carregamentos de carvão, a literatura dos exploradores nunca se esquece de assinalar locais, na costa ocidental africana, onde existiam depósitos de carvão, e ainda menos se esquece de referir topónimos formados sobre a raiz carbono, mesmo quando dificilmente os lugares assim chamados seriam visíveis, dada a distância e as condições atmosféricas. Refiro-me a um relato de subida ao Pico de Clarence, em Fernando Pó. O herói, salvo erro Rogozinski, um explorador tão problemático que a sua escalada é considerada viagem de recreio e piquenique pelos críticos mais impiedosos, uma vez alcançado o cume, quase sempre envolto em névoa, admira a paisagem até aos confins do horizonte, e consegue avistar, ao longe, um navio ancorado na Baía Carbonera (1). Era de certeza o navio que transportava para Cabo Verde as osgas de Bornéu. A maior parte das situações
que evocam iniciação na floresta, com as quais construí
o modelo da narrativa do explorador-naturalista nas montanhas de África,
no texto “Esoterismo e História Natural” (3), provêm
da literatura sobre as explorações em São Tomé
e Fernando Pó (Bioko, actualmente). Voltarei a elas logo que
tenha tempo, pois há um relato da descoberta do lago Loreto,
em Fernando Pó, para pôr em linha, que vai regalar os bons
primos, os bons irmãos, os bons frades, os bons naturalistas
e quaisquer outros bons leitores. -------------------------------------------------------------------
PAINÉIS DOS GRAUS
Emmanuel
GRANDES
VULTOS DA MAÇONARIA CARBONÁRIA ITALIANA
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La bolla di scomunica
PIO PP. VII
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