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Série: Carbonários – Rasto de terrorismo na vida de Portugal

O mais espectacular acto terrorista até hoje cometido no nosso país foi o assassínio do rei D. Carlos e do infante D. Luís, em 1908. Dez anos depois, foi abatido o presidente Sidónio Pais.

Desde finais do século XIX que se organizaram em Portugal sangrentos atentados terroristas. O assassínio do rei D. Carlos e do príncipe herdeiro D. Luís Filipe, abatidos com tiros de pistola e carabina, na manhã de 1 de Fevereiro de 1908, quando desfilavam em carruagem aberta perante a multidão concentrada no Terreiro do Paço, em Lisboa, foi o mais espectacular acto de terrorismo até hoje cometido em Portugal. O golpe alcançou todos os objectivos da “forma superior de luta” que, do ponto de vista dos seus defensores, constitui a essência do terrorismo político. Atingiu o símbolo máximo do poder – e, praticado à luz do dia, conseguiu atrair toda a publicidade disponível na época: à falta de fotografias, a reconstituição desenhada do atentado foi capa de jornais e revistas em todo o mundo, da América à Rússia.

Os regicidas, o empregado de comércio Alfredo Costa e o professor Manuel Buíça, chacinados no local por polícias e populares, pertenciam à Carbonária, sociedade secreta formada em 1896 por Artur Duarte Luz de Almeida, activista republicano e membro da Maçonaria.

A Carbonária era, aliás, considerada o braço armado da Maçonaria, cujos rituais e estrutura copiava. As células carbonárias chamavam-se “choças”, “barracas” e “vendas”, equivalentes às “lojas” maçónicas. Os filiados tratavam-se por “primos” (os maçons são “irmãos”) e, em muitos casos, pertenciam simultaneamente às duas organizações.Os carbonários participaram na revolução de 5 de Outubro de 1910 e muitos deles integraram a Formiga Branca – nome pejorativo com que foi baptizada pelos inimigos a milícia semiclandestina do Partido Democrático destinada a apoiar pelas armas as instituições da I República (1910-1926).

A Formiga Branca começou por combater as incursões monárquicas de 1911-12, mas rapidamente se dedicou à repressão de todos os opositores de Afonso Costa, o político mais influente do regime – desde os sindicalistas e os operários em geral até aos republicanos de outras tendências. O massacre da ‘Noite Sangrenta’, que se seguiu ao golpe de Estado de 19 de Outubro de 1921 e que vitimou, entre outros, o então chefe do Governo, António Granjo, e Machado Santos, o herói da revolução republicana, foi atribuído a elementos da Formiga Branca. Curiosamente, um dos primeiros actos dos golpistas foi a libertação do sargento José Júlio da Costa, que abatera com um tiro de pistola o presidente Sidónio Pais, na Estação do Rossio, em Lisboa, em 14 de Dezembro de 1918. O turbulento dia-a-dia da República tornou-se ainda mais agitado com a onda bombista que varreu o País, sobretudo Lisboa, entre 1919 e 1926. Os atentados foram atribuídos à Legião Vermelha, um grupo terrorista de ideologia mal definida. Na época, foi aparentada ao anarco-sindicalismo, tendência dominante do movimento operário português através da Confederação Geral do Trabalho (CGT, anarquista). Já depois do 25 de Abri de 1974, os históricos militantes anarco-sindicalistas Emídio Santana e Acácio Tomás de Aquino rejeitaram esse parentesco e ligaram a Legião a “bolchevistas” entusiasmados com o êxito, então recente, do comunismo na Rússia.

Entre as vítimas da Legião Vermelha contam-se o magistrado Pedro de Matos, morto a tiro em 5 de Julho de 1920, e o comandante da PSP de Lisboa, tenente-coronel Ferreira do Amaral (tio–avô do eng. Ferreira do Amaral que o País conhece), gravemente ferido em 15 de Maio de 1925. Da sua cama no hospital, o próprio Ferreira do Amaral dirigiu a repressão, que culminou com a prisão e o degredo para África de mais de cem suspeitos.

Foi o golpe de misericórdia na organização. O primeiro acto de terrorismo contra o Estado Novo, que governou Portugal até 1974, deu-se no dia 4 de Julho de 1937. Nesse domingo, pelas 10 horas da manhã, o presidente do Conselho, Oliveira Salazar, escapou ileso a um ataque à bomba, em Lisboa, levado a cabo por um grupo anarco-sindicalista chefiado por Emídio Santana.

A acção directa ganhou contornos mais violentos quando o Partido Comunista Português criou a Acção Revolucionária Armada (ARA), em Junho de 1970. No mesmo ano, já Carlos Antunes e Isabel do Carmo, dissidentes do PCP, tinham criado o seu próprio movimento de luta armada – as Brigadas Revolucionárias (BR), por não concordarem com a forma da luta pacífica seguida até então pelo Partido Comunista. A ARA antecipou-se às Brigadas Revolucionárias – e reivindicou o primeiro atentado, à bomba, contra o navio Cunene, a 25 de Outubro de 1970, executado por Gabriel Pedro e Carlos Coutinho. Mas a acção mais espectacular ocorreu a 8 de Março de 1971, na Base Aérea de Tancos, e resultou na destruição de 16 helicópteros e 11 aviões.

O período revolucionário que se seguiu ao 25 de Abril de 1974, inaugurou uma época de terrorismo de direita. Ataques bombistas, assaltos a sedes do Partido Comunista e de sindicatos, atentados a tiro, espancamentos puseram o País, sobretudo o Norte, a ferro e fogo. O desmantelamento deste grupo, responsável por cerca de 370 acções, apenas começou em Agosto de 1976. As Brigadas Revolucionárias, fundadas em 1970 por Carlos Antunes e Isabel do Carmo, chegaram a 1974 com dezenas de homens em armas.

A partir de Novembro de 1975, findo o período revolucionário, os brigadistas voltam à clandestinidade. A Polícia Judiciária desarticulou-os no Verão de 1978. Mas alguns destes operacionais, juntamente com Otelo Saraiva de Carvalho, fundaram as Forças Populares – 25 de Abril. Fizeram-se anunciar na madrugada de 20 de Abril de 1980. Seguiram-se seis anos de terror, incontáveis assaltos a bancos, 18 homicídios e alguns mais tentados.


Manuel Catarino

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