Individualismo “versus” valores maçónicos

A Maçonaria tem um papel fundamental também na vida profana, para que a organização social seja aperfeiçoada sem cair na mais que certa eliminação das liberdades individuais, a que conduzirá o excesso de individualismo

Vivemos numa época de perplexidade. Queixamo-nos sistematicamente da desagregação das famílias, da insegurança nas ruas e nas casas, do desrespeito pelas instituições, pelas pessoas, da falta à verdade de governos e de governados, dos escândalos envolvendo os mais altos dignitários das nações, uns baseados em verdade, outros inventados e manipulados pelos “media”, que destroem homens e as suas famílias, por mais honrados que sejam, para abrir caminho a outros, ávidos de poder e sem escrúpulos.

A opinião pública ri-se quando se fala de valores fundamentais, como honestidade, verticalidade, caridade, dimensão de estado, da simples noção de servir os países, o mundo ou os semelhantes. Ri-se por não considerar já possível haver verdade nessas intenções ou desinteresse na sua prática.

A noção de construção de um futuro comum, valor maçónico fundamental da construção do Templo Universal, parece ter-se desintegrado. Estará a Maçonaria a ser vítima do seu próprio sucesso na defesa dos direitos, liberdades e garantias da espécie humana, que fizemos aprovar nas mais altas instâncias das organizações mundiais? Quanto mais observamos o mundo profano, mais perplexos ficamos com a evolução da espécie humana. Quanto mais nos lamentamos, maior nos parece a nossa própria insuficiência para mudar o mundo para melhor. Proponho-vos, por isso, uma reflexão. Porque estamos nesta tremenda fase de tão elevado aperfeiçoamento material e de tanta carência espiritual? E não é essa carência que aqui nos une?

A última década do séc. XX e a entrada no séc. XXI são caracterizados pelo triunfo do individualismo. E este individualismo está a levar a sociedade para um caminho que temos que moldar segundo os princípios maçónicos do aperfeiçoamento.

Hoje, o que quer que desejemos, o mercado fornece. A nossa vida é marcada por algo que nos está subjacente e que a publicidade permanentemente nos deixa antever: “tenha tudo sempre de acordo com o seu desejo”. Em consequência, a sociedade ocidental está, hoje, fragmentada em milhões de indivíduos que não querem aquilo que lhes é dado, mas que querem tudo segundo o gosto de cada um e imediatamente.

O sentido de grupo ou de comunidade perde-se. Não pensamos em “nós” mas em “mim”, o eu soberano. O interesse do grupo, do País, do Estado ou do Planeta estão literalmente marginalizados na nossa postura profana. Em consequência somos relutantes em nos conformarmos com pressões sociais ou com estereótipos, não reconhecemos os nossos “superiores”, não nos submetemos à autoridade dos governos, das igrejas ou mesmo da estrutura familiar tradicional.

Dada a imensa escolha de opções, a vida transformou-se em um supermercado. Cada um de nós escolhe , com individualismo absoluto, a solução que pensa nos fará mais feliz. Se não gostamos do nosso casamento, divorciamo-nos. Se não gostamos da forma como sentimos os nossos humores, tomamos drogas. Se não gostamos do nosso aspecto, fazemos uma operação plástica.

É verdade que a sociedade em que vivemos é muito mais aperfeiçoada que as sociedades anteriores que conhecemos. A primazia do indivíduo, do consumidor, principio sacro da economia de mercado, trouxe maior liberdade às pessoas. O elitismo e o paternalismo esbateram-se, aumentando as oportunidades a todos os que não pertenciam à tradicional classe dominante. Uma maior diversidade tomou a sociedade mais livre.

Mas, como na cultura chinesa, também aqui não há apenas o bom, mas também a sua outra manifestação, isto é, o negativo.

A soberania individual está a conduzir à erosão das estruturas tradicionais da sociedade, com a consequente perda de estabilidade na vida das pessoas, criando confusão e incerteza.

maior individualismo significa que as pessoas põem cada vez mais os seus interesses pessoais acima dos interesses da sociedade como um todo, destruindo a prática do civismo, a noção do interesse comum e os valores morais, a gratificação individual de cada um de nós poder ter tudo o que quer, da forma que quer, mina a autoridade e a responsabilidade de cada um perante os seus semelhantes, conduzindo ao declínio da sociedade quase perfeita com que sonhamos, ao fazermos o elogio à tolerância e à liberdade dos homens, a liberdade e a tolerância transformadas em puro individualismo destroem a fraternidade e a solidariedade, fundamentos necessários da quadrilogia Liberdade, Tolerância, Fraternidade e Solidariedade. quando um dos pilares falha a sociedade pode ruir, a nossa acção no mundo profano exige a defesa intransigente da convivência dos quatro pilares.

Este minar da sociedade iniciou-se nos movimentos “hippies” dos anos 60. De acordo com o livro de Robert Bork, “Slouching Towards Gomorrah”, publicado em 1996, “os filhos dos liberais da classe média gastaram os anos 60 lançando os fundamentos para o declínio da sociedade, através do desafio da autoridade e da responsabilidade, numa orgia de auto-indulgência” (fim de citação).

Auto-indulgência não é a nossa tolerância.

A tolerância aplica-se aos nossos semelhantes.

A auto-indulgência é o adormecimento dos princípios em si próprio. A auto-indulgência é o contrário da construção do Templo Interior.

Desafiar a autoridade não é prática da Maçonaria Regular. Alijar a responsabilidade tão-pouco. A Maçonaria Regular não tem no seu seio estes princípios dos “baby-boomers” nascidos no pós-guerra, que informaram o movimento “hippy” dos anos 60 e que hoje dirigem os governos e as instituições que naqueles anos quiseram destruir. É esta tomada de controlo das instituições pelos “baby-boomers” (veja-se o caso de Clinton) e a sua imposição, ao mais alto nível da sociedade, da sua falta de valores, que está a conduzir a sociedade a uma situação explosiva.

Mas como foi possível chegar aqui? Há aspectos económicos cruciais que explicam a absorção social da ideologia “baby-boomer” (ou a falta dela). De facto:

O crescimento extraordinário da riqueza material depois da 2a Grande Guerra, transformou os indivíduos de pessoas gratas por obter os produtos escassos disponíveis, que os produtores e os governos decidiam produzir, em soberanos.

Antes, os indivíduos, os consumidores não eram importantes. Se queriam obter produtos ou serviços tinham que ser simpáticos para com os distribuidores.

Mas o crescimento económico acelerou, os rendimentos aumentaram e, nos anos 50, a capacidade de produção ultrapassou a capacidade de consumo tradicional, invertendo a relação entre consumidores e produtores, em favor dos primeiros. Já não eram os consumidores que tinham »

E mesmo a cultura, a formação e a arte estão subjugados ao conceito de que bom é o que se vende mais que ser simpáticos para quem lhes fornecia os produtos, mas sim os produtores que tinham que conquistar o consumidor para que ele lhes adquirisse o produto.

O consumidor passou a ter escolha.

E a escolha significa poder. Mas a habituação à utilização deste poder não se deu de imediato.

Houve um hiato de uma geração.

A geração nascida antes da 2a Grande Guerra nunca usou esse poder. Mas os seus filhos, nascidos e vividos em época de prosperidade contínua, tomaram-no por garantido.

Educados num pedestal, com a força do “Marketing” a seduzi-los com “slogans” como “se você quiser, será seu”, a geração nascida no pós-guerra interiorizou o direito a ter tudo, tal como queria, qualquer que fosse o seu capricho individual.

O estímulo ao individualismo não foi inocente. As empresas de vanguarda perceberam o interesse em o estimular, dado que a liberdade de expressão e um maior individualismo criavam novos desejos e novas necessidades, que os homens de negócios aproveitavam (e aproveitam) para satisfazerem e com isso aumentar as suas vendas.

Quanto mais importantes as pessoas se sentiam, mais questionavam porque razão tinham que se conformar com as regras da sociedade ou com o que os pais, os professores, os governos, as igrejas lhes diziam para fazer. Hoje, uma geração mais tarde, os indivíduos são cada vez mais importantes e assim se sentem.

Com a globalização em curso e o impressionante aumento da concorrência entre empresas, a fanática devoção aos soberanos desejos do consumidor é considerada a missão de qualquer empresa.

Os indivíduos estão a transformar-se em deuses e querem ser tratados como tal. A tão proclamada diferenciação de produtos não é mais que a afirmação do narcisismo das pequenas diferenças.

Desde Adam Smith que a soberania do consumidor era a base da economia de mercado. Passou-se um século até que essa soberania se realizasse. Hoje, instalada, a democracia liberal, como referia Fukuyama, em 1992, no seu livro “The End of History and The Last Man”, atingiu o seu último propósito, deixando-a sem nenhum outro patamar a atingir senão o de se espalhar a todos os cantos da terra (= globalização).

As consequências da primazia do indivíduo são claramente visíveis:

Disciplina, vergonha, princípios, estilos de vestir, respeito pela tradição, foram engolidos pela emancipação.

Mesmo cultura e formação se tornaram conceitos difíceis de definir, dado que não há autoridade que defina o que eles são. Artisticamente, o conceito de bom é o conceito do que vende mais.

O individualismo crescente pode ainda notar-se no cada vez menor interesse em participarmos em jogos de equipa, sermos membros de clubes, participarmos em jantares de família ou aplicarmos tempo a socializar com os amigos. Mas esta crescente quebra de laços com os outros toma muito mais fácil a agressão aos outros. À medida que cada um se sente um deus toma-se cada vez mais agressivo face a qualquer acto de outrem que lhe desagrade. Hoje mata-se à porta das escolas porque um semelhante resiste a um assalto, disparam-se “very lights” mortíferos contra adeptos de um clube antagónico, matam-se septuagenários para lhes retirar meia dúzia de tostões.

O individualismo começa a transformar-se em anarquia silenciosa. Que se pode chamar ao crescente desrespeito pela actividade política e pelos políticos, em todo o mundo, e ao crescente aumento da abstenção, que retira legitimidade aos governos eleitos?.

O problema fundamental é que o individualismo triunfante não é um patamar no caminho para algo melhor: o individualismo é um destino final. Não há caminho em frente. O único caminho é andar para trás.

Mas andar para trás significa voltar a um mundo autoritário, menos perfeito, onde as liberdades e garantias dos cidadãos consagrados na Carta dos Direitos Humanos da ONU, de origem maçónica, serão necessariamente postos em causa.

A Maçonaria tem, portanto, um papel fundamental nos dias que correm. Vítima do individualismo a que o princípio da tolerância nos levou, há que reforçar o equilíbrio necessário dos quatro pilares: tolerância, liberdade, fraternidade e solidariedade. Não há Liberdade sem Tolerância.

Mas a Liberdade e a Tolerância auto- destruir-se-ão, se não estiverem fortemente suportadas em fraternidade e solidariedade, os dois conceitos incompatíveis com o individualismo excessivo.

O nosso Templo Interior só se poderá construir se na nossa vida profana lutarmos pelos nossos princípios.

A Maçonaria tem um papel fundamental, também na vida profana, para que a organização social seja aperfeiçoada sem cair na mais que certa eliminação das liberdades individuais, a que conduzirá o excesso de individualismo.

O caminho é de aperfeiçoamento, pela prática e pregação da Fraternidade e da Solidariedade. O caminho não pode ser andar para trás, embora seja clara a consciência de que também não é andar para a frente. O caminho é, respeitando a liberdade individual e praticando-a, implementarmos o civismo e sentido de colectividade, de humanidade. É o nós acima do eu. É este o desígnio do G.A.D.U. A Maçonaria é decisiva na garantia do futuro, em liberdade mas em responsabilidade, das gerações que viverão o séc. XXI.

Ernesto Silva

Fonte: https://www.freemason.pt/individualismo-versus-valores-maconicos/

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