
Simbolismo e Herança Pagã na Maçonaria: A Lenda de Hiram Abiff e os Mistérios da Construção Sagrada
“Explore a fascinante conexão entre o simbolismo pagão e a Maçonaria, desvendando a lenda de Hiram Abiff e os Mistérios da construção sagrada. Descubra como mitos antigos, como os de Ísis e Osíris, Tamuz e Dionísio, moldaram rituais, símbolos e a visão espiritual dos maçons modernos.”
Simbolismo e Herança Pagã na Maçonaria
Filo considerava a deidade adorada pelos antigos hebreus como andrógina, possuindo tanto características masculinas como femininas. Segundo um relato, um dos querubins era masculino e outro, feminino.
Se Hiram Abiff era adorador pagão da Deusa, tendo sido responsável pelo projeto de seus templos em Tiro, qual o significado do seu assassinato ritual, em Jerusalém, pelas mãos dos colegas pedreiros?
Nos antigos ritos da Deusa, a morte ritual ou sacrifício de seu consorte, ou de um sacerdote representando-o, figurava com proeminência. Esse elemento sacrificial, na adoração da Deusa, era comum no Oriente Médio, devendo ter sido bem conhecido pelos israelitas. Tal aspecto sacrificial também vinha acompanhado do mito da ressurreição do deus morto, encontrado na lenda de Hiram Abiff, em seu enterro e exumação pagão, é a história de Ísis e Osíris, no antigo Egito. O mito exerceu profundo efeito no desenvolvimento dos Mistérios pagãos do mundo clássico, tendo também influenciado o cristianismo primitivo.
Na mitologia egípcia, Ísis e Osíris representam os mais antigos soberanos do delta do Nilo, nos tempos imemoriais. Durante o seu reinado, o Egito floresceu, porque as duas divindades civilizaram a terra e a sua gente, anteriormente bárbaros selvagens entregues ao canibalismo e práticas sexuais pervertidas. Ísis e Osíris introduziram um código legal, a agricultura, as artes e os ofícios, os templos e a veneração correta dos deuses. Devido a esses feitos, o povo egípcio adorava os seus soberanos, venerando-os como seres divinos.
Porém, Osíris possuía um rival e inimigo, o seu irmão gêmeo Set (ou Typhon, significando, em grego, “insolência” ou “orgulho”). Set queria governar o país e estava, constantemente, conspirando contra a família real.
Durante um afastamento de Osíris, em que Ísis estava governando sozinha, Set tramou, com 72 conspiradores, a morte do rei. Ele havia, secretamente, medido o corpo de Osíris e construiu uma arca especial capaz de conter perfeitamente o rei. No retorno de Osíris, ele convidou o rei e os conspiradores para uma festa de boas-vindas. Ísis alertou o marido para não ir, mas Osíris riu e disse que nada deveria temer de seu frágil irmão.
Na festa, todos os presentes admiraram a arca adornada com joias feita por Set, e ele prometeu dá-la de presente à pessoa cujo corpo nela se encaixasse. Um após o outro, os convivas tentaram, mas tinham o tamanho errado. Finalmente, Osíris entrou na arca e Set e os conspiradores fecharam a tampa, pregaram-na e a selaram com chumbo derretido. Eles então atiraram o esquife no Nilo.
Quando Ísis soube do assassinato de seu marido, foi tomada de dor. Na crença egípcia, o corpo tinha de ser enterrado com os ritos fúnebres corretos, para que a alma não ficasse vagando eternamente pela Terra. Ísis pôs-se à procura do corpo de Osíris, subindo e descendo o Nilo, e perguntando a quem encontrasse se havia avistado a arca. Finalmente, algumas crianças contaram que tinham visto o esquife na boca do rio, flutuando em direção ao mar. A rainha descobriu que ele tinha ido parar no litoral de Biblos, na Síria, onde ficou presa nos ramos de uma tamargueira, que é um pequeno arbusto. O rei de Biblos derrubou a árvore, sem perceber o ataúde de Osíris preso no tronco, transformando-a em um pilar para o teto de seu palácio.
Quando Ísis descobriu o ocorrido, navegou até Biblos, onde, valendo-se de ardis, tornou-se uma aia na casa real, servindo a rainha daquela terra, também chamada Astarte. Esse, é claro, também era o nome da deusa da fertilidade adorada em Tiro, Sidon e pelos israelitas em Canaã. Através de sua amizade com a jovem rainha, Ísis persuadiu o rei a cortar a árvore liberando o corpo de Osíris. Ela levou o corpo de seu marido de volta ao Egito, e o pilar de tamargueira tornou-se um objeto de culto em Biblos.
Depois de retornar ao Egito, Ísis deixou a arca em um local seguro, enquanto procurava o filho Hórus. Entretanto, Set soube de seu retorno e, durante uma caçada, descobriu o esconderijo da arca. Em sua ira, ele desmembrou o corpo de Osíris, espalhando os 14 pedaços por todo o Egito. Quando Ísis foi informada desse novo ultraje, percorreu todo o país e, sempre que encontrava uma parte do corpo, erguia um santuário para marcar o lugar.
Cada um desses sítios sagrados ficava em um monte, e o local do sepultamento foi marcado com uma árvore, significando que Osíris se erguera de entre os mortos. A décima quarta parte do corpo de Osíris, o seu pênis, jamais foi achada, por ter sido engolida por um peixe. Ísis fez uma réplica de ouro do pênis de seu marido, enterrando-a em Mendes, sede de um templo dedicado ao culto do Deus-Bode. Nos tempos medievais, o Diabo era, às vezes, chamado de Bode de Mendes, porque nesse templo, no antigo Egito, rituais grotescos eram realizados, envolvendo sacerdotisas nuas que mantinham relações sexuais com bodes.
Nos julgamentos medievais de bruxas, as mulheres eram acusadas de haverem mantido relações sexuais com o Diabo, que aparecia em forma de carneiro ou bode.
Osíris tornou-se o foco do culto da ressurreição no Egito dinástico, e seus adoradores acreditavam que, pela prática de seus ritos, conquistariam a vida eterna após a morte. Como Osíris havia introduzido a cevada e o trigo no Egito, sua principal festa religiosa coincidia com a colheita. Ele tem sido reconhecido como um deus da vegetação que morreu no outono e renasceu na primavera. Seu mito, portanto, assemelha-se a outros deuses da fertilidade do Oriente Médio, tais como Adônis, Átis e Dionísio.
Dar-se a Osíris a introdução da vinha e das uvas no Egito e, nos Mistérios gregos, Dionísio, ou Baco, era adorado como o deus patrono dos vinhedos. Muitas vezes, ele era simplesmente representado como uma face barbada esculpida em uma árvore, ou a sua imagem era um pilar decorado com uma máscara barbada cercada de folhas.
Essas representações assemelham-se às máscaras folhadas que se dizia representarem o personagem do folclore inglês, Jack-in-the-Green, ou o Homem Verde, que se pode ver nas igrejas de épocas anteriores à Reforma. Comparem-se, também, essas imagens com a história do corpo de Osíris preso nos ramos de uma árvore, que mais tarde viria a ser venerada como um objeto sagrado.
Dionísio e Osíris têm, ambos, vínculos com o culto de Adônis, cuja adoração era comum no Oriente Médio dos tempos antigos. Adônis era reverenciado pelos povos semitas da Babilônia e Síria, sendo originalmente conhecido como Tamuz. O nome foi alterado para Adônis, que significa “Senhor”, e as suas conexões linguísticas com o Adonai judaico costumavam descrever um dos aspectos de Javé. Adônis ou Tamuz nasceu na meia-noite de 24 de dezembro e irrompeu para a vida do tronco de uma árvore.
Ambos os eventos sugerem paralelos com Osíris e Jesus. Tamuz é o deus-menino consorte da deusa babilônica do amor e da guerra, Ishtar, venerada pelos sumérios como Inana e pelos cananeus como Astarte. Ishtar era identificada com a Lua e a estrela da manhã, Vênus (o símbolo associado, na Bíblia judaico-cristã, ao anjo rebelde Lúcifer, mais tarde erroneamente identificado com Satã ou o Diabo) e figura no mito babilônico do Dilúvio, tomado de empréstimo pelos hebreus.
No mito de Tamuz e Ishtar, o jovem deus, que é o seu amante, é morto por um javali e transportado para o Mundo dos Mortos. A deusa, enlutada pela perda, viaja para a Região das Sombras, em uma tentativa de recuperar o consorte perdido. Enquanto está afastada da Terra, as colheitas fracassam, o gado se torna estéril e homens e mulheres perdem a capacidade de praticarem o sexo. Em cada um dos sete portões do Mundo dos Mortos, a deusa é forçada a remover um item de seu vestuário, até, finalmente, conseguir penetrar no reino dos mortos despida e indefesa. Como resultado de sua súplica aos soberanos do Mundo dos Mortos, Tamuz é ressuscitado, Ishtar retorna à terra e a fertilidade é restaurada.
Culto de Tamuz no Templo de Jerusalém
O culto pagão ao deus da fertilidade Tamuz nas vizinhanças do templo de Jerusalém é mencionado pelo profeta do Antigo Testamento, Ezequiel. Descrevendo uma visão propiciada por Javé, o profeta diz, em Ezequiel 8:14:
“Levou-me à entrada da porta da casa do Senhor (o templo de Salomão), que está da banda do norte, e eis que estavam ali mulheres assentadas chorando a Tamuz.”
Nos mitos de Osíris, Dionísio e Adônis/Tamuz, estão contidos os elementos-chave da morte, do renascimento e da fertilidade.
A Lenda de Hiram Abiff
Esses elementos, juntamente com os papéis que esses deuses representavam como consortes da Deusa Mãe, são fundamentais para a compreensão da lenda de Hiram Abiff, das origens pagãs da Maçonaria e da visão utópica constituindo o ideal político das fraternidades ocultistas derivadas da Maçonaria. De acordo com os mitos antigos, o soberano de Tiro também se chamava Hiram e diz-se que teria sido um rei-sacerdote do culto de Adônis.
De acordo com as crenças religiosas dessa época, esse rei-sacerdote foi sacrificado para a Deusa, ao se tornar velho demais para representar Tamuz na festa anual dedicada ao deus. Ao morrer, a sua alma supostamente passou para o corpo de seu filho ou do substituto escolhido, que reinou como rei-sacerdote em seu lugar.
Os Artífices de Dionísio
Hiram Abiff foi, secretamente, um membro de uma antiga sociedade conhecida como os Artífices de Dionísio, surgida por volta de 1000 a.C., quando o templo de Jerusalém estava sendo construído. Eles tomaram o nome do deus grego e possuíam sinais e senhas secretas pelos quais se reconheciam mutuamente. Estavam divididos em Capítulos ou Lojas governadas por um Mestre e se dedicavam a ajudar os pobres.
Os Artífices de Dionísio acreditavam que os templos que construíam tinham de obedecer aos princípios da geometria sagrada, refletindo o plano divino. Com o uso da simetria, do sistema de medidas e do cálculo de proporção, os Artífices construíram edifícios religiosos representando o corpo humano como um símbolo do universo. A sua teoria arquitetônica baseava-se na filosofia hermética e na crença pagã panteísta na unidade entre o universo e Deus.
A humanidade era o bloco de pedra bruta que o mestre pedreiro ou Grande Arquiteto (Deus) estava, constantemente, moldando e polindo, a fim de transformá-lo em um objeto de perfeição. O martelo e o cinzel do pedreiro tornaram-se as forças cósmicas que davam forma ao destino espiritual da humanidade. Na Maçonaria especulativa do século XVIII, o martelo simbolizava o poder divino. Ele era usado para medir os recintos abençoados da loja, indo até onde o grão-mestre conseguia atirar o martelo, em qualquer direção.
O arquiteto e mestre construtor romano, Vitrivius, nascido no século I d.C., foi influenciado pelos Artífices de Dionísio. As suas teorias formaram a base da arquitetura do Império Romano e, com a redescoberta do conhecimento clássico, no século XVI, também exerceram impacto sobre os maiores arquitetos da Renascença. O conceito de Vitrivius do teatro mágico, representando o microcosmo do mundo como símbolo do macrocosmo do universo, espelha-se na famosa frase de William Shakespeare:
“O mundo todo é um palco, e todos os homens e mulheres meros atores…”
e no nome de seu teatro, The Globe (O Globo). Pretende-se que Shakespeare tenha sido um iniciado Rosa-Cruz e, como tal, tenha estado familiarizado com as ideias de Vitrivius e dos Artífices de Dionísio.
A Influência Romana
Segundo a tradição maçônica, César Augusto foi nomeado patrono dos pedreiros, na Roma antiga, e diz-se ter sido grão-mestre do Colégio Romano de Arquitetos. Essa sociedade estava organizada em guildas, com símbolos baseados nas ferramentas de seu ofício, como o fio de prumo, o esquadro, os compassos e o nível.
Esses símbolos foram herdados e adaptados pela Maçonaria moderna, como representações de virtudes espirituais e da construção do caráter humano.
Conclusão
Ao longo dos séculos, a Maçonaria incorporou elementos simbólicos e filosóficos de diversas tradições antigas, incluindo os Mistérios Egípcios, os Artífices de Dionísio e as tradições herméticas. Essa rica herança reflete-se em seus rituais, símbolos e aspirações, que visam não apenas a construção de templos materiais, mas também a edificação do templo interno de cada indivíduo.
Através de suas práticas e ensinamentos, a Maçonaria busca conectar os maçons a uma longa linhagem de buscadores da verdade, preservando e transmitindo os segredos da construção — tanto do mundo físico quanto do mundo espiritual.


