A EXPERIÊNCIA ENSINA

O título “Irmão” inclui obrigação séria; a de socorrer qualquer outro Irmão que se achar em situação difícil e que não esteja originada por sua própria culpa ou leviandade.

O Mundo profano sabe disso. E houve mesmo em nosso Or.’. Vários casos em que gente momentaneamente ou cronicamente em situação precária se lembrava da Maçonaria. É a maior preocupação dessa gente conseguir entrar numa Loja para, em seguida, apresentar o seu pedido de ajuda financeira. Não é esta a finalidade da Franco-Maçonaria. E não serve para nós uma pessoa que quer se aproveitar da nossa Subl.’. Ordem, e que pensa com sua entrada efetuar uma espécie de seguro contra o infortúnio, mediante pagamento de suas mensalidades. Já houve esses casos. Mas em geral não é de muita duração a permanência de tais elementos em nossas fileiras, porque dentro em breve são descobertas suas egoístas intenções.

Diferente é quando um Irmão, inesperadamente fica surpreendido por uma desgraça. Neste caso, a sua Loja, sem ele pedir, ajudá-lo-á o máximo possível. Também pode vir um pedido de outra Loja e será atendido dentro das possibilidades. Há casos isolados em que Irmãos visitantes necessitam de socorro. Também são atendidos. Mas, com toda cautela. Pois já houve casos de abusos e de impostores. Ficou estabelecido em nossa Oficina que nenhuma ajuda é dada individualmente fora da loja. Unicamente em conjunto numa sessão onde se examina o caso convenientemente. Mas, podem ocorrer casos de grande urgência. Poderão ser tratados dessa maneira?

Lembro-me que numa noite tivemos o prazer de receber a visita dum Irmão de outro Oriente. Era empresário de uma troupe de artistas. Deu diversos espetáculos em nossa cidade. Prestigiando o Ir.’., todos adquirimos ingressos. Mas, notamos que a freqüência em seu show estava fraca. Ficou quase uma semana. No último dia, o nosso Irmão artista e empresário achava-se numa situação embaraçosa. A despesa superava em muito a renda dos espetáculos. Faltavam-lhe recursos para poder pagar a despesa do hotel para todo o ensemble e mais ainda o custo do frete da volumosa bagagem.

Apresentou-se em meu escritório todo nervoso e angustiado:

  • Meu Ir.’., você é o último que estou procurando e também a minha última esperança. Já falei com quase todos os Irmãos e lhes contei o meu caso. Nenhum deles pode ajudar-me. Dizem que não é da competência deles. Mandaram-me falar com o Ven.’.. Este, por sua vez, afirma que o meu caso só poderá ser resolvido em Loja, na próxima sessão, daqui quatro dias. Mas não posso esperar tanto. Mais quatro dias para dez pessoas no hotel seria acumular mais despesas. Não pretendo levar dinheiro. Preciso apenas a assinatura como avalista numa Nota Promissória sobre dez mil. Será que a Maçonaria desconfia de todo Irmão que pede um favor?

Refleti se devia ajudar a esse Irmão. Não é parecido com aqueles trapaceiros que já passaram por aqui, levando dinheiro emprestado para nunca mais o devolver, ou dar satisfação. Também me lembrei da resolução em loja: “Não dar dinheiro fora da Oficina”. Entretanto, qualquer coisa me impeliu a responder:

  • É contra o regulamento de nossa Loja. Mas em vista do seu caso de excepcional urgência assinarei o seu título como avalista, confiando no Irmão e na sua palavra.

Fomos ao Banco e assinei a letra com o prazo de três meses.

Muitíssimo satisfeito despediu-se o Irmão empresário, prometendo pagar o título pontualmente no vencimento.

Já havia passado meio ano. A promissória não paga já fora debitada em minha conta bancária e nada de notícias do Irmão artista. Pensei comigo: “Será possível que a gente se engana tanto num homem que se chama maçom e Irmão?” Não pode ser! Não seria o primeiro caso de desilusão. Mas, nunca numa importância tão elevada para um só Irmão prejudicado. E considerei que se também este Irmão me desiludir, terei por força das circunstâncias de acreditar naquela frase célebre e pejorativa: “nem todo maçom é ladrão, mas muito ladrão se intitula maçom” – frase esta que li em um panfleto de outra co-irmã, advertindo os Irmãos contra um falso Maçom, explorador de incautos.

Comparando as duas personalidades, meu íntimo inclinou-se em favor do Irmão artista, embora este não haver se manifestado ainda. Pode que ele tenha ficado doente, pensei, ou outras circunstâncias adversas não o permitiram ainda saldar a sua dívida contraída. Algum dia, talvez não muito longe, virá uma notícia dele esclarecendo tudo.

E esse dia chegou inesperadamente semanas mais tarde, quando na rua principal de nossa cidade encontrei o Irmão empresário. Ele me abraçou efusivamente se desculpando:

  • Queira o Irmão não me levar a mal a demora. Mas hoje estou aqui para me reabilitar. Não faça mau juízo de mim. O azar me tem perseguido todo este tempo. Tive que dissolver o meu ensemble. E agora estou a caminho para o Sul, onde já tenho contrato com outra Companhia. O Irmão teve que pagar o meu título?
  • Paguei sim meu Irmão.
  • Quanto incômodo lhe causei! Mil desculpas! Vamos já ao banco. Quero saber quanto de juros lhe devo.

Fomos ambos ao Instituto de Crédito. Recebi o meu dinheiro de volta, inclusive os juros. Ele levou o título quitado que estava debitado em minha conta.

No mesmo dia ainda seguiu viagem. Ao despedir-se disse-me:

  • Muitas gracias por tudo, e que o G.’. A.’. D.’. U.’. vos dê muita saúde. Isto é tudo que um pobre artista perseguido pela má sorte pode desejar em retribuição.
  • Não há de que, meu Ir.’.! É dever do maçom socorrer outro Irmão em situação difícil. Nada mais fiz que cumprir com a meu dever.

Autor: Hans Bachl; iniciado na A.’. R.’. L.’. S.’. Luz e Verdade Terceira, GOB, 08/07/1949. Fonte: Nos Bastidores da Maçonaria. Editora: Aurora. Página: 15-18. Joinville, Santa Catarina.

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