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AS FERRAMENTAS DE TRABALHO

Pergunta: Como as “Ferramentas de Trabalho” passaram a fazer parte de nossas cerimônias? Todas as Ferramentas existentes já eram usadas em épocas antigas ou foram gradualmente incluídas?

Resposta: Antes de debatermos a respeito do surgimento das “Ferramentas de Trabalho” em nossos primeiros documentos ritualísticos, pode ser interessante listar alguma das principais ferramentas usadas pelos maçons operativos, conforme registrado por certas fontes. Um inventário na lista de ferramentas armazenadas em uma Loja de maçons, do final do ano de 1399, relaciona, entre outros: 69 machados de pedra, 96 cinzéis de ferro, 24 malhetes de madeira, 1 machadinha, 1 martelo grande, 1 compasso, 2 pranchetas… etc.

Uma pesquisa mostra que martelos e machados de pedra eram usados abarcando ampla variedade de formatos e pesos. Nela, identificamos machados com cabeças perfuradas, para os cortadores de lenha; martelo de pedra, usados em camadas ásperas de rocha, para tornar lisas as superfícies não polidas; martelos, ora com
extremidade na vertical ora na horizontal; e martelo com ambas as extremidades, na vertical e na horizontal.

Também existiam martelos de pedra, picaretas, cinzéis e colheres de pedreiro (trolha); machadinhos e enxadas; alavancas, bastões e cunhas; “pontas”, escoras e verrumas; malhetes e marretas. As ferramentas cortantes feitas de ferro normalmente eram “aceiradas”, tarefa demorada que mantinham os ferreiros bem ocupados, afiando-as e reparando-as.

É claro, as principais ferramentas de madeira eram esquadros, réguas, níveis e prumos todos normalmente feitos de materiais usados na confecção de barris. Existem freqüentes referências a cordas ou a “barbantes de embrulhos”, ora sendo usadas como “demarcadores” (ancestral da skirret?) ora como cordões de prumo.

Certamente, nossa ancestralidade especulativa tinha uma ampla gama de ferramentas, das quais algumas foram relacionadas para serem “representadas” no ritual.

Ainda que existam muitos registros a respeito das ferramentas, como tais, dos maçons, na verdade não há menção das ferramentas usadas ao longo das cerimônias de Loja. Em todos os antigos MS. Constitutions até a década de 1650, a cerimônia de admissão consistia em não mais do que a leitura dos Deveres (Charges) em um juramento de fidelidade. Um texto de aproximadamente 1650 dá o efeito da Obrigação, contendo uma referência a “palavras & sinais” secretos, implicando que houve uma substancial expansão do conteúdo das cerimônias, porém as “Ferramentas de Trabalho” não são sequer mencionadas.

A referência mais antiga sobre as “Ferramentas”, descrita em um contexto não-operativo, encontra-se em Academie of Armory, de 1688, por Rondle Holme, terceiro distinto membro da família de mesmo nome, relacionado com a cidade de Chester.

Holme era um maçom cavalheiro e pregoeiro, e em uma breve passagem de seu livro, concernente aos maçons livres, ele diz “observei entre eles o uso de várias Ferramentas”. Então, uma série de ferramentas é listada, por exemplo, pá, martelo de mão, cinzel, picareta e um perfurador, todas pertencentes a Maçonaria Operativa, acrescentando que algumas ferramentas eram representadas em Brasões de Armas.

Ele não diz se todas ou qualquer uma dessas ferramentas eram de fato usadas ou mencionadas no decorrer da cerimônia, portanto não podemos ter certeza disso. Casualmente, a versão das Old Charges, de c. 1650, mencionadas acima que contêm as Obrigações e Deveres com as “palavras & sinais” secretos é quase que
inteiramente manuscrita por ele.

Como era de se esperar, a mais antiga evidência das ferramentas em cerimônias maçônicas está nos primeiros catecismos e, posteriormente, nas publicações espúrias. Todos os antigos textos que resistiram ao tempo são manuscritos e, de modo geral, podem ser vistos como laboriosamente escritos de modo a servir
como aides-memóire.

As partes impressas, que começaram a circular, em 1723, por um jornal, eram geralmente publicadas para proveito pessoal, curiosidade ou por puro ódio. A diferença entre o que estava impresso e os manuscritos nada vale, disso resulta que um bom grau de confiança pode ser atribuído aos manuscritos, embora todos eles devam ser vistos com certa cautela.

A evidência inicial vem de Edinburgh Register House MS., de 1696 com duas versões posteriores praticamente idênticas, de 1700 e 1714. Elas continham apenas uma passagem mencionando as ferramentas. Esta ocorre no decorrer da saudação dos Irmãos ao Candidato, em sua reentrada na Loja: … como jurei por Deus, por São João, pelo Esquadro E PELO Compasso, e pelo juiz comum…

O “Juiz comum” era uma medida ou um padrão. O padrão, descrito como um jadge é retratado entre as ferramentas no Mark Book of the Lodge of Aberdeen.
Nenhum dos textos fornece outra informação sobre as ferramentas, até abril de 1723, quando um jornal, The Flying Post-Master, publicou sem título um catecismo maçônico, hoje conhecido como A Mason’s Examination.

O catecismo contém as mesmas três ferramentas mencionadas acima e o texto em outro lugar ainda cita o Astler e o Diamante, junto ao Esquadro e o Compasso comum. Várias publicações espúrias francesas posteriores, do período aproximado de 1744-51, sugerem que a Pedra Polida pode ter sido usada como um tipo em que outras Ferramentas eram afiadas, mas é improvável que ela, em si mesma, fosse uma ferramenta. O “Diamante” pode ter sido um tipo de martelo
usado para dar acabamento em trabalhos de entalhe.

No ano seguinte, em 1724, contestando a questão sobre como uma Loja era governada, a edição de The Grand Mystery of Free-Masons Discover’d respondeu “pelo Esquadro e Compasso”, possivelmente contendo a primeira referência a aquilo que hoje é conhecido como “régua de 24 polegadas”. Já um texto posterior, de 1725, tem como resposta “pelo Compasso, Prumo e Régua”.

Em um catecismo manuscrito dotado de 1724, intitulado The Whole Institution of Masonry, há uma questão sobre o número de Luzes na Loja seguida da seguinte resposta: Doze… Pai, Filho, Espírito Santo, Sol, Lua, Mestre Maçom, Esquadro, Régua, Prumo, Linha, Malho e Cinzel.

Aqui havia um grande progresso, embora obviamente não seja certo que todas essas ferramentas eram de fato usadas nas cerimônias. Outra questão no mesmo texto traz as respostas “com o Esquadro e o Compasso em meu Peito”, detalhe que aparecerá com regularidade nos textos posteriormente publicados. Temos como certo que essas duas ferramentas eram usadas, porém, quanto as
outras, sabe que apenas estavam falando a respeito delas.

Surpreendentemente, nessa época o Nível ainda não havia aparecido!
Assim, em 1725 temos uma grande coleção de ferramentas, incluindo várias que não haviam sido previamente mencionadas, por exemplo, a Régua, que hoje pode ser interpretada como a precursora da medida de 24 polegadas; o Malho, ou seja, o Malhete ou Martelo, e o Cinzel. Deve ser observado que o Prumo e a Linha são apresentados como duas ferramentas separadas, possivelmente porque a “Linha” seja entendida como uma versão antiga da Skirret, porém, ela também pode ser uma referência à Corda que arrasta o Candidato.

Sobre este último ponto, em Dumgries, n° 4, de 1710, em resposta a uma das perguntas que lhe são feitas, o candidato diz que foi conduzido para o interior da Loja: “Vergonhosamente, com uma corda ao redor do meu pescoço”.

O conjunto de ferramentas apresentadas em 1724, chamado de “Doze Luzes”, novamente aparece em dois outros textos: um cartaz intitulado The Whole Institutions of Free-Masons Opened, de 1725, e em uma publicação bem mais interessante, de 1726, Graham MS.

Outro texto de 1726, The Grand Mystery Laid Open, contém quantidade desproporcional de material sem sentido, mas uma das questões sobre as ferramentas necessárias ao maçom livre traz a resposta “o Prumo e a Trolha…”, sendo que depois, durante as Obrigações, o candidato segura a Trolha com a mão direita e o Martelo com a esquerda. Esse detalhe não reaparece nos textos
posteriores.

Em A Mason’s Confession, de 1727, existe o esquadro, o nível, o prumo, a régua e a “caução”, e esta posteriormente ainda apareceria em The Mystery of Freemasonry, de 1730, porém ela então desapareceria dos textos subseqüentes. Ao que tudo indica, foi em 1727 que o Nível foi pela primeira vez mencionado.

Então chegamos ao Masonry Dissected de Prichard, de 1730, considerada a mais detalhada obra espúria publicada até aquela época. Nela, é mencionado que o candidato se ajoelha na forma correta, com o Compasso apontado para seu P.’.E.’.D.’. e com as “Jóias Móveis”, quais sejam, Esquadro, Nível e Prumo, que também são os Emblemas do Mestre e dos VVig.’.. Na sua descrição do assassinato de H.’.A.’., os agressores usam “Martelo, Ferramenta e Maço”, mas não devemos seguir adiante sobre isso.

O texto A Dialogue Between Simon and Philip, de 1740, acrescenta apenas um item a nossa lista, um “Quadrante”, um segmento de 90° de um círculo, onde na extremidade em curva há um marcador que mostra os graus, mas da mesma forma que uma ferramenta anteriormente citada, essa não reaparece nos demais textos.

O texto de Prichard provavelmente foi o primeiro de uma inteira série a pelo menos explicar alguma das ferramentas, de modo a guardar certa proximidade ao modo moderno de entendimento delas.

Respondendo a uma questão sobre a utilização do Esquadro, Nível e Prumo, Prichard diz: O Esquadro delineia a Verdade e as Linhas Retas, o Nível retifica os Horizontes e o Prumo retifica todas as colunas.

O Wilkinson MS., um texto equivalente do mesmo período, embora fragmentado, diz que: O Esquadro verifica se os Cantos da Pedra são delineados retamente, o Nível se estão nivelados e o Prumo para se elevar Perpendiculares.

Tudo isso se encontra bem próximo de nosso estilo atual de explanação, mas não existem explicações antigas relacionadas às demais ferramentas.

No Le Catéchisme des Francs-Maçons, de 1744, o “desenho de chão” usado na “Loja de Aprendizes-Companheiros”, entre outros símbolos, contém as seguintes ferramentas: Esquadro, Compasso, Nível, Prumo, Trolha e um Malhete de Mestre (não é um Martelo comum).

Em 1760, temos a primeira de uma nova série inglesa de publicações espúrias iniciadas com Three Distinct Knocks, em que começamos a encontrar várias explicações familiares para algumas das ferramentas, mas não para todas, e essas explanações parecem estar confinadas à cerimônia do Aprendiz, por exemplo: A Bíblia orienta e governa nossa Fé; o Esquadro, para Esquadrinhar nossas Ações; o Compasso mantém-nos Obrigados para com todos os Homens, particularmente com um irmão.

Logo depois, o trabalho com as ferramentas para um Aprendiz iniciado é explicado do seguinte modo:

Mestre: Como são usadas?
Resposta: O Esquadro para esquadrinhar meu Trabalho, a Régua
de 24 polegadas para medi-lo, o Martelo comum para eliminar todos
os Assuntos supérfluos, de modo pelo qual o Esquadro possa ser
correto e justo.

M. Irmão, como não somos maçons operativos aplicamos as
ferramentas à nossa Moral, o que chamamos espiritualização:
explique-as?
R. A Régua de 24 Polegadas representa as 24 Horas do Dia.

M. Irmão como gastas estas horas?
R. Seis Horas trabalhando, Seis Horas para servir a Deus, Seis para servir a um Amigo ou um Irmão, tanto quanto permitir o meu Poder, sem detrimento de mim mesmo ou de minha família, e Seis Horas para Descansar.

Não existem explicações das ferramentas para o C. M. ou para o M M, porém na lenda hirâmica os agressores agora passam a usar a Régua de 24 polegadas, o Esquadro e o Martelo ou Malhete.

O principal período e a época mais proveitosa para o desenvolvimento e elaborações de nosso ritual foram o último quartel do século XVIII.

Preston, em sua cerimônia de Instalação de 1801, listou Régua, Linha, Trolha, Cinzel, Prumo, Nível, Esquadro, Compasso e Malhete, nesta ordem, e “refletindo” brevemente sobre cada uma delas, usando palavras que hoje nos são bastante familiares. O melhor desse material foi incluído em nosso ritual imediatamente após a União das Grandes Lojas, em 1813.

Livro Ofício do Maçom

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